Mindful Leadership: como a atenção conduz a liderança à maestria

“Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo” – Buda –

O conceito de Mindful Leadership ou liderança consciente, propõe uma visão mais profunda e abrangente para o desenvolvimento de lideranças, incluindo métodos que proporcione o cultivo de estados internos mais qualificados e o desenvolvimento de virtudes. A maior parte das teorias sobre liderança disponíveis não abordam essas questões, mantendo-se focadas em estilos comportamentais, ferramentas ou modelos.

Atenção é uma faculdade mental que, quando cultivada, fortalece e qualifica nossa experiência no mundo e nossa capacidade de manter o foco, de conectar o espaço interno com o externo, e despertar qualidades como lucidez, serenidade, prontidão, vitalidade e ampliação da percepção de si mesmo, do outro e do contexto, que gera um estado de presença qualificado e nos ajuda a superar a reatividade e o piloto automático que nos afasta da eficácia na vida cotidiana. A atenção é treinada e desenvolvida, entre outros métodos, pelas práticas meditativas ou mindfulness (atenção plena). Pesquisas científicas comprovam os benefícios da meditação para diminuição do estresse, da ansiedade, do déficit de atenção, da depressão e da insônia. Também demonstram os benefícios para o desenvolvimento e fortalecimento de valores e qualidades humanas como compaixão, tolerância e resiliência. As práticas de atenção, mindfulness ou meditação, têm o propósito de ampliar nossa experiência de liberdade ao proporcionar melhor compreensão e intimidade com nossas emoções, pensamentos e sensações, criando um espaço interno de governabilidade e coerência.

O tema tem sido recorrente em publicações voltadas para negócio e gestão, amparado pela experiência prática de executivos e teóricos da envergadura de Peter Senge, Daniel Goleman, Tal Ben-Shahar, Bob Shapiro, Steve Jobs, Ikujiro Nonaka, Otto Scharmer, entre outros, que reconheceram os benefícios da meditação para suas vidas e naturalmente, para o desempenho profissional. No entanto, não podemos perder de vista que os métodos meditativos são milenares, presentes em diversas culturas e tradições e que veem beneficiando pessoas no mundo todo, há milhares de anos.

Venho estudando, praticando e ensinando meditação desde 1991 e acredito que como método de autodesenvolvimento, certamente, tem o potencial de gerar inúmeros benefícios para lideres inseridos no intenso ambiente das organizações. É natural que alguns a vejam como antagônico ao dinâmico ambiente organizacional, mas se entendermos meditação como consequência de uma forte atenção / concentração / foco, que gera um estado alterado e amplo de percepção e é inerente ao potencial da mente humana, podemos compreender que a meditação está mais para um estado do que para uma prática em si. O que praticamos é atenção / foco / concentração.

A capacidade de atenção afeta fortemente nossas vidas e se essa capacidade se torna comprometida por causa de qualquer agitação ou tédio, não conseguiremos fazer quase nada certo. O reconhecimento de que a mente naturalmente oscila entre lentidão e agitação, distração e foco, e de que somos, involuntariamente, tomados por estados de aflições emocionais como ansiedade, hostilidade, depressão, orgulho, raiva, entre outros estados que sabemos ter forte impacto sobre o desempenho das pessoas, torna-se relevante aprender a cultivar a própria mente.

Penso que há um aspecto sobre performance ainda pouco falado – o estado interno da pessoa que está performando. Uma pessoa para ter alto desempenho precisa de boa capacidade de atenção e concentração, mas o que viabiliza essa capacidade nas atividades cotidianas? Antes, precisamos entender que há dois tipos de atenção – a externa e a interna. A atenção externa diz respeito às tarefas do momento, como tomar uma decisão, elaborar um relatório, atender um cliente, conduzir uma reunião, apresentar um projeto, realizar uma venda ou negociação. Por outro lado, a atenção interna diz respeito ao estado de consciência do agente, a sua capacidade reflexiva, a sua presença, a relação com seus valores. Os dois estados são importantes, cada um tem um lugar em nossas vidas, mas é a concentração interna que viabiliza, sustenta e fortalece a externa, tão necessária para ter bom desempenho. As práticas meditativas incentivam o treino da concentração interna, da auto-observação, da desaceleração, da alegria e paz de espírito.

Daniel Goleman, em seu livro Foco: a atenção e seu papel fundamental para o sucesso, afirma que os líderes para serem bem-sucedidos precisam dominar o foco interno, o foco externo e o foco no outro. Essencialmente, é a mesma coisa, pois foco e atenção, nessa perspectiva, são sinônimos.

Em meus estudos, encontrei diversas referências sobre a importância de estados internos mais qualitativos em obras de gestão e negócios. Nonaka e Takeushi, da gestão do conhecimento, afirmam que empresas e pessoas bem-sucedidas possuem grande capacidade de enfrentar e tirar vantagem dos paradoxos, das ambiguidades e incertezas que caracterizam essa época de complexidade. Uma “mente dialética”, segundo eles, possibilita as pessoas abraçarem ativamente os opostos, lidarem com contradições e aceitarem o “ambos-e”, livrando-se da tirania do “ou-ou”. Otto Scharmer, de Teoria U, afirmou que “a mesma coisa pode promover um resultado, totalmente diferente, dependendo do lugar interior (fonte e qualidade da atenção) a partir do qual sua ação se origina”. Ele passou dez anos estudando o pensamento de líderes mais impressionantes, criadores excepcionais e mestres da inovação e concluiu que pareciam operar a partir de um processo interno diferente, um processo que os inseria no campo das futuras possibilidades, isto é, aprendiam de forma generativa (a partir do futuro emergente).

De forma sintética, o método de aprendizagem proposto por Scharmer, sugere (1) perceber a realidade como ela é, suspendendo voluntariamente o julgamento; (2) criar um espaço de reflexão (presencing), acessando a sabedoria interior para ter um diagnóstico “limpo” da realidade e permitir novas soluções e (3) realizar, fazer acontecer com rapidez e naturalidade. O presencig é o momento de reflexão ou contemplação para acessar a “sabedoria interna”. Daniel Goleman demonstrou que pessoas que cultivaram o hábito da meditação, responderam mais rapidamente a eventos estressores e sofriam muito menos após o evento. O próprio Peter Senge reconheceu que o insight que deu origem a sua obra Quinta Disciplina veio em uma meditação. Todos nós já experimentamos, involuntariamente, total absorção no momento presente ao praticar um esporte, ler um livro, fazer amor, mexer no jardim ou na realização de qualquer atividade prazerosa. Todos esses são exemplos de conexão e presença, que acontecem involuntariamente. A meditação é o ato voluntário de focar a atenção onde e quando se deseja. Entre alguns de seus benefícios, destaco:

  • Ampliação do livre-arbítrio: significa ampliar sua capacidade de escolha, seu protagonismo diante da vida, sua prontidão, com fortalecimento do foco, vontade, qualidade atencional, capacidade reflexiva e espiritualidade. O que mais nos limita não são as outras pessoas ou as circunstâncias, mas nosso próprio modelo mental arraigado, referências e apegos que nos aprisionam. A meditação ajuda a relativizar seus pressupostos pessoais e ganhar melhor liberdade interna. Humildade e espírito de aprendiz, por si só, é sabedoria prática.
  • Lucidez: Um sonhador sem senso de realidade torna-se um “viajante”, um realista sem sonho torna seu coração duro e insensível. Uma pessoa lúcida consegue harmonizar sonhos com senso de realidade, objetividade com sensibilidade. Lucidez possibilita ver os eventos com mais clareza, enxergar claramente os impactos das nossas ações antes de realizá-las e ter uma mente objetiva sem perder a compaixão.
  • Equanimidade: é uma “competência” que pode ser entendida como a habilidade de manter-se sereno diante de qualquer evento, seja ele agradável ou desagradável. Significa aprender a não reagir impulsivamente (por apego ou aversão) diante de um acontecimento. A meditação ajuda a criar um “espaço de reflexão” para superar o automatismo e assim, escolher a ação mais eficaz e adequada para determinado contexto. Equanimidade é a base mental para aresiliência, que qualifica a pessoa a superar adversidades e mudanças inesperadas.
  • Lidar eficazmente com paradoxos: a meditação é um tanto paradoxal e sua prática nos ajuda a lidar com eles. Em meditação, a potência de sua concentração é proporcional ao seu nível de relaxamento, a estabilidade física é viabilizada quando se consegue relaxar no esforço. É uma sabedoria um tanto difícil para modelos mentais controladores compreenderem. Um atleta consegue performar bem melhor quando se liberta da pressão interna de ganhar, a criatividade emerge quando estamos mais soltos e relaxados.
  • Gestão eficaz do estresse: o estresse é uma realidade na vida das pessoas e um estorvo para as organizações. Executivos estão adoecendo por todo o mundo, pois não possuem mecanismos efetivos para gerenciar o estresse profissional. A OMS – Organização Mundial da Saúde tem afirmado que a depressão é a segunda causa de afastamento no trabalho e será a primeira até 2020. O índice de suicídio entre executivos e empreendedores, apesar de velado, e alarmante. Há uma grave desconexão das pessoas com propósitos de vida e quando há, muitas vezes exageram na dedicação ao trabalho. Sintomas como presenteísmo (ausência mental no trabalho), ansiedade, descontrole emocional, entre outros são resolvidos com uma melhor “musculatura mental” e um estado de presença no aqui/agora, que o cultivo de meditação pode certamente ajudar.

 

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