A importância da atenção e das emoções para a neurociência

Meditação-e-a-Neurociência“A faculdade de trazer uma mente que vagueia de volta, vez após vez, é a raiz do julgamento, do caráter e da vontade.   Ninguém pode ser mestre de si mesmo sem atenção. Uma educação que melhore essa faculdade deve ser considerada a educação por excelência” – William James –

O grande mérito da neurociência tem sido evidenciar e mapear, cientificamente, conhecimentos sobre o cérebro, os comportamentos e a cognição humana que antes tínhamos como senso comum ou encontrávamos nas teorias comportamentais e na psicologia. Conhecer um pouco mais sobre neurociência tornou-se quase fundamental para profissionais que atuam nas áreas de desenvolvimento, coaching, mentoring e liderança, justamente por explicar como é possível aprender melhor e promover mudanças comportamentais e sociais aplicando-se os estímulos apropriados.

O que temos de informações e conhecimentos disponíveis sobre o tema se deve ao esforço e colaboração de diversas áreas do conhecimento. Cientistas, especialistas em comportamento, físicos, matemáticos, filósofos, educadores, médicos, psicólogos e até monges veem se empenhando há mais de 40 anos para compreender o funcionamento do cérebro humano e como melhorar seu desempenho. Neste artigo, pretendo passar por alguns desses pesquisadores e relacionar suas descobertas com conhecimentos uteis para nós, com um enfoque especial para atenção e o efeito das emoções positivas.

Richard Davidson, por influência de Sua Santidade O Dalai Lama, que em 1992 o questionou sobre “porque você usa as ferramentas da neurociência apenas para estudar ansiedade, estresse, medo e depressão? Porque não usa essas ferramentas para estudar a bondade e a compaixão?”, dedica-se a realizar pesquisas e experimentos científicos sobre as emoções e as práticas contemplativas encontradas nas tradições orientais. Em 2011, Matthieu Ricard, PHD em genética molecular que também é monge, levou um grupo de colegas do Nepal e do Tibet para o laboratório de Davidson na Universidade de Winconsin. O próprio Ricard, objeto dos experimentos, foi declarado pelos cientistas como o homem mais feliz do mundo por constatarem que seu cérebro é capaz de produzir um nível elevadíssimo de ondas gama, atribuindo à meditação a sua capacidade incrivelmente anormal de sentir felicidade e uma propensão reduzida para a negatividade.

As investigações de Davidson demonstraram como o desenvolvimento de práticas de bem-estar, como a meditação, influenciam as funções do cérebro. Seus estudos sobre os aspectos positivos da mente e de como desenvolver estratégias para intensificar a saúde mental e o bem-estar, concluíram que a mente saudável e o bem-estar são habilidades e, podem ser treinadas, fortalecidas e cultivadas.

Davidson mapeou o que ele chama de “quatro componentes do bem-estar”. Segundo ele, existem evidências de que o treinamento mental nessas habilidades pode fazer uma grande diferença na experiência de bem-estar das pessoas e até mesmo criar novos circuitos neurais, remodelando as respectivas regiões do cérebro. Os componentes do bem-estar identificados por Davidson são (1) resiliência que se traduz na rapidez com que somos capazes de nos recuperar das adversidades e que uma maior resiliência, indica menos experiências negativas, protegendo-nos contra desequilíbrios mentais; (2) perspectiva positiva que diz respeito a bondade inata dos seres humanos, buscando enxergar sementes de gentileza e compaixão nas pessoas; (3) atenção que afirma que em cerca de 47% do tempo de vigília as mentes das pessoas estão vagueando e, a falta de atenção está associado à experiência de infelicidade e (4) generosidade demonstrando evidências que atos de generosidade trazem felicidade para quem é generoso e para quem é beneficiado.

Em meu artigo “Coaching e meditação podem ser complementares?” que publiquei em 2014, citei que “a exigência de aprendizagem daqui para o futuro tenderia a integrar saberes, métodos e ferramentas que num passado recente eram inconcebíveis…o coaching pode ativar processos de mudanças enquanto a inclusão de uma prática meditativa pode ajudar a dar suporte para o processo de mudança, incorporando-a disciplinadamente no cotidiano, torna-se a manutenção. Por isso, são altamente complementares no serviço ao cliente”. A neurociência passou a dar valor à atenção e seu papel na construção de estados internos qualitativos para ampliar nossa capacidade de mudar e de aprender. Mas temos que ter clareza que tudo isso não é novidade. William James, um dos fundadores da psicologia moderna, já dava enorme valor à atenção. Em seu livro The Principles of Psychology de 1890, cita que “A faculdade de trazer uma mente que vagueia de volta, vez após vez, é a raiz do julgamento, do caráter e da vontade. Ninguém pode ser mestre de si mesmo sem atenção. Uma educação que melhore essa faculdade deve ser considerada a educação por excelência”.

Alan Wallace, inglês, físico e monge, é um dos mais importantes estudiosos da mente na atualidade. Ele faz um contraponto interessante e vital ao nos alertar sobre algumas armadilhas que podemos cair em acreditar cegamente na ciência, ou mais precisamente na neurociência. Wallace afirma que “os cientistas do cérebro estudam apenas os correlatos mente-cérebro e o verdadeiro estudo sobre a mente é ter o acesso direto. Isso significa que, apesar de toda sofisticação e rigor cientifico é necessário aprender a mergulhar num treinamento rigoroso de observação da única mente à qual se tem acesso direto – a própria”. Então não adianta apenas conhecer, é preciso fazer. Nesse sentido, porque não incluir práticas de atenção em processos de coaching, para preparar e construir um estado interno mais aberto, receptivo e reflexivo, que será útil tanto para o coach quanto para o coachee?

A neurocientista Wendy Hasenkamp afirma que “a meditação é um processo de investigação da sua própria mente e de mudança da forma como você se relaciona com seus pensamentos”. Suas pesquisas demonstraram vários benefícios da meditação, desde o aumento da atenção e melhora do rendimento em exames, à redução do estresse e melhora da imunidade. Em psicologia, os pesquisadores estão procurando tornar mais claro como mudanças cognitivas e neurais produzidas pela meditação podem afetar o corpo físico, tornando-o mais saudável e resiliente em resposta ao estresse do mundo moderno. Embora as pessoas tendem a pensar que a habilidade de meditar é uma habilidade inata –ou você é capaz de meditar ou não – como a maior parte das habilidades, a capacidade cognitiva para a meditação pode ser treinada, confirmando milhares de anos de evidências vindas de tradições contemplativas. Da mesma maneira que malhar e levantar pesos na academia desenvolve os seus músculos, a prática de habilidades mentais como meditar ou aprender um idioma constrói circuitos neuronais no cérebro. O que a ciência está provando é que com intenção e prática dedicada é possível transformar o cérebro.

Esse entendimento representa uma revolução para educadores, psicólogos e cientistas, que por décadas afirmaram que o cérebro era “imutável”. O reconhecimento da neuroplasticidade do cérebro confirma que é possível mudar sua estrutura e construir novas sinapses pelas experiências do dia-a-dia. O cérebro se molda a partir das experiências, positivas ou negativas, quer queiramos ou não. Essa é uma boa razão para prestarmos muita atenção aos padrões mentais e aprendermos a cultivar hábitos mentais saudáveis de maneira voluntária. Por um lado, a neurociência reconhece as limitações determinadas pelos genes e pelo meio ambiente mas, por outro reconhece que a meditação tem um papel importante para a neuroplasticidade cerebral.

Segundo Hasencamp “a meditação está associada ao aumento da densidade da massa cinzenta do cérebro, aumento da espessura cortical e aumento da integridade de conexões entre regiões cerebrais importantes para o controle cognitivo”. A pesquisadora evidenciou que quanto maior a quantidade de horas de meditação, maior será a quantidade de dobras corticais da insula – uma área importante para integração autônoma, emocional e cognitiva, demonstrando que meditadores mais experientes apresentaram maior coerência da atividade cerebral nas redes ligadas à atenção, e também entre regiões de controle da atenção e áreas envolvidas com divagações mentais. Isso sugere uma habilidade para concentração e para “soltar” pensamentos intrusos.

E como todo esse conhecimento pode apoiar os processos de mudança e desenvolvimento nas organizações? Assim como Jon Kabat-Zinn, Daniel Goleman, David Rock, entre outros, Richard Davidson também tem atuado no desenho de um currículo voltado para executivos, que possa ser aplicado, de forma simples, no cotidiano. Ele acredita que quando a eficácia deste currículo for comprovada, demonstrando que é possível baixar os custos organizacionais devido à baixa produtividade e afastamentos por estresse, melhorando a qualidade do estado interno das pessoas, as organizações perceberão que as evidencias da neurociência para o desenvolvimento humano e melhoria da performance de fato podem trazer resultados melhores e mais duradouros.

Mas como recomendou o próprio Buda “não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros. Não acredite em algo só porque seus professores, mestres (e cientistas) dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e benefício de todos, aceite-o e viva-o”.

Tudo de bom.

Artigo originalmente publicado no Dossiê Neurociências da Revista Coaching Brasil.

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