Artigo: Mudar dói, mas é bom!

mudar doi“Toda mudança positiva… envolve um ritual de passagem. A cada subida para um degrau mais alto na escada da evolução pessoal, devemos atravessar um período de desconforto, de iniciação. Eu nunca conheci uma exceção”.

– Dan Millman –

 

Numa manhã fria de domingo, recebi o convite de um velho amigo para uma caminhada no parque. Foram duas horas de uma conversa extremamente nutritiva e edificante, sendo um dos principais assuntos, a mudança. Passei o resto do domingo digerindo e refletindo sobre esse tema e achei que seria um bom titulo para encerrar meu ciclo na Revista.

Uma das coisas que pensei, foram as histórias de meus antepassados. Meu avô paterno, por exemplo, saiu da Espanha ainda criança, juntamente com sua família em busca de uma terra que pudessem lhes proporcionar uma vida melhor. É difícil imaginar, nos dias atuais, uma família inteira fazer uma viagem sem volta, para uma terra desconhecida e com pouquíssima ou nenhuma informação sobre o que iriam encontrar. Hoje podemos ter informações sobre o clima antes mesmo de sair de casa pela manhã e ter uma ideia do que vamos encontrar em nosso destino. Nossos antepassados passaram por mudanças radicais, sem informações suficientes e dando as costas definitivamente para a antiga vida. Pensei ainda na situação dos grandes exploradores que partiam em suas viagens de descoberta sem um mapa completo, apenas com cartas náuticas desenhadas à mão e instrumentos como bussola, barquinha, astrolábio e quadrante para checarem e medirem a direção e velocidade, num ambiente onde terra e mar eram instáveis, turbulentos e inseguros, que mudavam constantemente sem qualquer aviso prévio.

Tentei imaginar o mundo daqui a vinte ou trinta anos. Quais as mudanças que podemos esperar da tecnologia, do meio ambiente, dos valores sociais, das relações de trabalho, da medicina, entre tantas outras áreas do conhecimento humano? Não sabemos ao certo o que nos espera, mas uma coisa é certa. Todos nós estamos envolvidos em uma grande tarefa de exploração, a riscos, descobertas e mudanças, sem qualquer mapa que nos mostre o cenário completo e nos sirva de guia. Nessa perspectiva, não somos muito diferentes dos antigos exploradores. Apenas temos outros instrumentos, além de outras e novas complexidades. Que tipo de conhecimento será necessário para dar conta do futuro? Que aprendizados nos serão exigidos?

Aprecio me deixar inspirar e aprender com as historias dos antepassados, principalmente, no que diz respeito aos valores, crenças e emoções que sustentaram o destemor, a superação, a cooperação, a força de vontade, o espirito empreendedor e a capacidade de adaptação, para citar algumas das inúmeras virtudes que nos trouxeram até aqui e que, para mim, apoiam e sustentam os processos de mudança.

Mudar dói, sem dúvidas. No aspecto individual, dói porque exige deixar algo que se tem apreço para trás, dói porque exige abrir mão de uma situação conhecida por outra incerta e desconhecida. Envolve riscos. Abrir-se para o novo é uma aventura de exploração que nos exige coragem, ajuda mútua, empenho, adaptabilidade e uma visão de mundo de que tudo está, além de nossa vontade, em constante transformação. Para encontrar uma nova paisagem de vida é preciso se lançar para a aventura. Os budistas têm uma visão interessante sobre mudança, amparados na observação de que “nada permanece imutável, tudo é impermanente”. Se essa é uma realidade da vida, talvez devêssemos desenvolver as habilidades para “surfar essa onda”. No aspecto coletivo, dói porque exige rupturas no campo dos valores e das relações. Dói porque alguns sairão frustrados, se resistirem à mudança. Como exemplo, as crises social, politica e econômica que assolam a sociedade brasileira e que pedem mudanças urgentes.

Peter Senge, um dos grandes teóricos da aprendizagem organizacional, afirma que “temos uma profunda tendência para ver as mudanças que precisamos efetuar como estando no mundo exterior, não no nosso mundo interior”. O aprendizado é um processo de crescimento integrado, que envolve a pessoa, os outros e o ambiente. Senge sugeriu em seu clássico livro “A quinta disciplina”, que o desenvolvimento da aprendizagem organizacional (aqui, quero não apenas relacionar com empresas, mas aos grupos, sociedades, comunidades, famílias, etc.) agrupadas em cinco “disciplinas”, que modificam o indivíduo através da aquisição de novas habilidades, conhecimentos, experiências e níveis de consciência de si.

Domínio Pessoal é a primeira disciplina. Tida como a base espiritual das organizações, está relacionada com a tomada de consciência e o desenvolvimento das capacidades humanas para obter aquilo que se deseja. Essa atitude de aprendizagem envolve o autoconhecimento e o conhecimento em si e pressupõe uma atitude reflexiva, de reconhecimento dos limites pessoais, dos potenciais, das virtudes e dificuldades pessoais. Sugere o desenvolvimento da habilidade de substituir a tensão emocional pela tensão criativa, assumir maior responsabilidade pelos acontecimentos da vida e de si mesmo. Pelo domínio pessoal aprende-se a esclarecer e aprofundar continuamente, concentrar energias para realização, desenvolver a paciência e a ver a realidade de maneira mais objetiva.

A segunda disciplina trata dos Modelos Mentais. Já sabemos que cada um de nós faz uma leitura e interpretação do mundo de forma bastante particular, influenciados por paradigmas, crenças, referencias e pressupostos que modelam o nosso modo habitual de agir e perceber a realidade. Essa disciplina sugere desenvolver consciência dos pensamentos e emoções que estão por trás das decisões. Aprender a desenvolver conversas instrutivas, em que as pessoas na comunidade expressem suas ideias com clareza e permaneçam abertas, ajuda a ampliar os modelos mentais.

A terceira disciplina, a Visão Compartilhada e se relaciona com o Objetivo Comum da comunidade. Quando esse objetivo tem significado para as pessoas, elas darão tudo de si para chegar lá juntos e aprendem, não por obrigação, mas por livre e espontânea vontade. Para gerar um objetivo comum nas pessoas é necessário buscar imagens desejadas no futuro, que promovam um engajamento verdadeiro. Essa disciplina ajuda a comunidade a compreender a importância de estabelecer um objetivo e visão compartilhada com todas as pessoas.

Aprendizagem em Grupo é a quarta disciplina e valoriza o diálogo como meio de superar os padrões que prejudicam a evolução da comunidade. Envolve o treino do saber ouvir, diminuir o grau de defesa, saber expor os seus pontos de vista, entre outras. Nas comunidades tradicionais, como índios, por exemplo, é sabido que eles resolviam suas diferenças e aprendiam sobre si mesmos em volta de uma fogueira, organizados num circulo, onde não havia hierarquia formal. Era um espaço para aprendizado, compartilhamento e crescimento do grupo.

A quinta e última disciplina, trata-se do Pensamento Sistêmico e consiste em perceber o mundo como um conjunto integrado de acontecimentos e relações. Neste sentido é muito importante conhecer bem o todo antes de nele fazer qualquer intervenção, pois uma alteração num sistema afeta toda a comunidade. A mudança nunca é algo individual, sempre afeta a comunidade.

Esse é um tipo de conhecimento, um modelo, que está a nossa disposição para nos ajudar a compreender os esforços necessários para lidar com o presente e com o futuro. Mudar dói, sem dúvidas. Mas se pensarmos que a mudança nos trará uma situação melhor do que a atual, tanto na perspectiva individual quanto social, certamente nos inspirará a motivação necessária para se lançar na aventura.

Mude para ser cada vez melhor.

Originalmente publicado na Revista Coaching Brasil em julho / 2015.

Um comentário sobre “Artigo: Mudar dói, mas é bom!

  1. Como vai Carlos? Tudo legal? (rsrsr piada infame…) Acabo de ler um texto que me fez lembrar da suas aulas. Fala de Ego e Julgamento. Segue:

    ARMADILHAS DO EGO

    “Se você acha que é mais “espiritual” andar de bicicleta ou usar transporte público para se locomover, tudo bem, mas se você julgar qualquer outra pessoa que dirige um carro, então você está preso em uma armadilha do ego. Se você acha que é mais “espiritual” não ver televisão porque mexe com o seu cérebro, tudo bem, mas se julgar aqueles que ainda assistem, então você está preso em uma armadilha do ego. Se você acha que é mais “espiritual” evitar saber de fofocas ou noticias da mídia , mas se encontra julgando aqueles que leem essas coisas, então você está preso em uma armadilha do ego. Se você acha que é mais “espiritual” fazer Yoga, se tornar vegano, comprar só comidas orgânicas, comprar cristais, praticar reiki, meditar, usar roupas “hippies”, visitar templos e ler livros sobre iluminação espiritual, mas julgar qualquer pessoa que não faça isso, então você está preso em uma armadilha do ego. Sempre esteja consciente ao se sentir superior. A noção de que você é superior é a maior indicação de que você está em uma armadilha egóica. O ego adora entrar pela porta de trás. Ele vai pegar uma ideia nobre, como começar yoga e, então, distorce-la para servir o seu objetivo ao fazer você se sentir superior aos outros; você começará a menosprezar aqueles que não estão seguindo o seu “caminho espiritual certo”. Superioridade, julgamento e condenação. Essas são armadilhas do ego.”
    Mooji

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